Por Alexandra G. Dumas
Frio, silêncio, música erudita, fantasia, máscaras, muita gente na rua, a folia...
Cerveja, música alta, calor, dança, batuques, muita gente na rua, a folia...
Oposições e semelhanças.
Para começar uma mesma festa sob um mesmo pretexto e ocasião; o espaço da rua e da praça como cenário; o mesmo motivo para celebração: o carnal, o vale, o tudo, o entrudo, o carnaval...
O nome e suas especulações: do latim medieval carnem levare ou carnelevarium: dias mais permissivos que antecedem a quaresma – período de abstinência de carne. São os dias de alívio para entrar na “lei seca”, privação de carnes, da carne... Um esbaldar-se para agüentar os quarenta dias seguintes de penitência. Esta prática é recorrente em diversas religiões. Esse nosso carnaval vem da religião católica, mas este bebeu na fonte de outras festas, profanas, populares, pagãs da Antiguidade, ou seja, somos e viemos mesmo de outros carnavais... É para suportar a abstinência futura que fica valendo todo o excesso. Sem pecado e sem juízo.
Histórias e etimologias à parte, aqui estou para mais uma vez tentar entender o Brasil, na situação que vivo atualmente, estando de fora dele, no exílio escolhido para o meu doutorado em Paris. Depois de passar pela lavagem da Madalena, (ver: http://www.soniavandijck.com/alexandra_dumas.htm) agora chego ao ápice da brasilidade, o carnaval.
Para os que ainda não me conhecem, sou visivelmente brasileira - mulata acaboclada- e caricaturalmente baiana: sei sambar, conheço o candomblé e jogo um pouco de capoeira.
Diante de tais apelos, convites e notícias do carnaval soteropolitano, estando no rigoroso inverno e quase inexistente carnaval parisiense, decidi não cortar os pulsos: saí do chão e resolvi me aventurar numa viagem de excursão saindo de Paris, rumo à Veneza.
Duzentos e vinte euros foi o preço desta dose única, remédio antimonotonia que envolvia hospedagem e o transporte de buzu: 14 horas de Paris à Pádua, onde nos hospedamos, até por que ficar em Veneza neste período não é para qualquer um, muito menos para uma estudante bolsista do governo brasileiro. Até me senti culpada por gastar os euros vindos do real brasileiro nesta empreitada individual, mas para mim e para vocês justifico: sou uma pesquisadora dos festejos populares e nada mais justo, aliás, justíssimo que eu e vocês cidadãos fizessem este investimento. Retribuirei com todo empenho que já dedico à minha tese. Mas, como carnaval não é época para culpas e desculpas, vamos à festa...